Uma crônica
Apresentada por João Dierberger Junior
Preâmbulo
É
tarefa ingente procurar sintetizar em breve crônica o histórico
de uma organização que, desde os primórdios de sua fundação,
em 1893, alcança em 2002, oitenta anos de existência. Assim,
o que se segue, é apenas o clarão de um relâmpago iluminando
tão dilatado espaço de tempo. É, por assim dizer, apenas
um "flash" fixando uma imagem. João Dierberger, que tantas
sementes semeou em sua útil existência, foi ele mesmo uma semente
que se constituiu em árvore portentosa, árvore de lindas flores
e ótimos frutos, cuja sombra amiga e benfazeja abrigou, abriga e abrigará
a todos os que seguiram e continuam seguindo seus dignificantes exemplos de
pioneirismo, de lutas e de constância de propósitos.
É, pois, possuídos de justo orgulho e profundamente gratos ao
Todo Poderoso que as atuais organizações Dierberger. Se rejubilam
em comemorar o 100º aniversário de sua fundação,
e, dirigindo-nos aos nossos amigos, aos nossos clientes, aos nossos dedicados
colaboradores e ao público em geral, apresentamos um curto relato do
marcante acontecimento.
1º Período 1893 - 1919
Em
25 de dezembro de 1890, desembarcava no Rio de Janeiro p jovem jardineiro
João. Dierberger. Tinha 20 anos de idade e não trazia consigo
outra bagagem senão a arte profissional e uma indomável vontade
de trabalhar e de vencer nesta parte do novo mundo, já que desde a
primeira infância só conhecera privações e o trabalho
duro.
Após curta permanência no Estado de Minas Gerias, vem à
São Paulo e aí consegue emprego em sua profissão, indo
trabalhar como horticultura então famosa Chácara Carvalho, de
propriedade da veneranda, benemérita e aristocrata dama, a senhora
Dona Veridiana Prado, que admirava em João Dierberger as qualidades
de competente profissional e de homem íntegro e trabalhador.
1º
de dezembro de 1893 - Dona Veridiana cede-lhe, à título de arrendamento,
a pequena chácara que possuía e que formava um triângulo,
delimitado pelas atuais ruas da Consolação, Caio Prado e Augusta
- hoje a Praça Roosevelt. Estabelece então seu primeiro campo
de produção de hortaliças, de flores e de plantas. Faz
"milagres" no exíguo espaço, e os primeiros resultados
obtidos com as culturas de plantas de ciclo curto já lhe permitem progredir
tratando da inclusão de plantas de ciclo mais dilatado.
Simultaneamente, abre uma loja na rua do Seminário, a qual é
gerida por Dona Elisa, sua esposa, que assim se fez, no Brasil, a pioneira
no comércio de sementes. Sendo distante da cidade a sua chácara,
mantém João Dierberger um depósito de plantas na atual
Praça da República.
19 de outubro de 1895 - Auxiliado por seu sogro, adquire através de
duas compras a quadra de terras situada atrás do hoje Parque Siqueira
Campos, na Avenida Paulista, ali onde se situa agora o Colégio Dante
Aligheri. Isto lhe custou a enorme soma de oito contos de réis e lhe
permitiu estender as suas culturas de plantas.
Na então cidade colonial que era São Paulo, tudo estava para
ser feito em sua atividade de horticultor e os primeiros dez anos foram penosos,
cheios de sacrifícios. Praticamente não existiam coleções
e matrizes de plantas floríferas e ornamentais, sendo inteiramente
desconhecido o consumo de hortaliças européias. Ademais, faltavam
a João Dierberger.
O capital e o crédito, tão necessários em qualquer empreendimento
nascente. Assim, as memórias de João Dierberger e de Dona Elisa
merecem toda a nossa admiração e respeito, legítimos
símbolos da tenacidade e da esperança em dias melhores.
1909- Agora, pelo preço de doze contos de réis, adquire João
Dierberger duzentos e cinqüenta mil metros de terras, localizadas na
vargem que compreende hoje a Avenida Paulista e o Rio Pinheiros, entre as
atuais rua José Maria Lisboa, Pamplona, Casa Branca e Estados Unidos.
A favorável topografia dessas terras, a sua fertilidade de vargem humífera
e a abundância das aguadas, permitiram-lhe desenvolver rapidamente os
planos de cultivo com os quais de há muito sonhava. Ajudou-o no novo
empreendimento o bom numerário obtido com a venda de sua antiga chácara
da Avenida Paulista. Aí, então, paulatinamente, foi enriquecendo
cada vez mais as suas coleções de plantas, tanto através
de importação como da domesticação ou civilização
de valiosas plantas nativas. Passou a construir estufas e demais instalações
culturais.
Mas, João Dierberger, ainda assim não teria vencido, não
fosse e versatilidade do trabalho que sabia desenvolver. Modernizou cada vez
mais a sua seção floral e firmou-se definitivamente e na técnica
de jardinagem.
Não lhe faltavam contratempos. A crônica necessidade de dinheiro
era sempre premente. Imagine-se os estragos provocados por duas invasões
de gafanhotos e duas chuvas de granizo.
A praga destruindo as plantas e a saraiva danificando as instalações.
Isto provocou "lágrimas de homem"e foi necessário
reconstruir praticamente tudo.
Sempre otimista e empreendedor, vendo sua obra progredir e a cidade crescer,
estendeu seu campo de atividade: fundou uma filial em Santos, organizou a
Floricultura Campineira, e, no sítio Três Cruzes, em Mogi das
Cruzes, formou extensas culturas, principalmente de rosas, azáleas,
de camélias e de coníferas, plantas que com grandes sacrifícios
e riscos havia importado.
Eram os seus principais colaboradores neste primeiro período: Sua esposa
Dona Elisa, João Kachler (pai) , Albert Roth, Gustavo Bausch, F. Jaquet,
Theodoro Lourencini.
2º período 1919-1940
Em
1919, tendo terminado na Europa seus estudos profissionais, regressam ao Brasil
os filhos homens de João Dierberger, João e Reynaldo, sendo
desde logo integrados na empresa paterna. Em 1922, compram mais oitenta e
seis mil metros quadrados de terras, na rua Iguatemi, no bairro de Pinheiros,
no local onde se situa hoje o Shopping Center Iguatemi. Tem lugar novos e
grandes aumentos das plantações, gerando, necessariamente, maior
necessidade de capital de giro.
Em 1924, tencionando os dois irmãos estender as suas atividades para
o nascente campo da fruticultura, adquiriram terras no município de
Limeira, e iniciam ali a cultura da laranjeira e de muitas outras plantas
frutíferas. No mesmo ano, em sociedade com os irmãos Strassburger,
compram terras onde é hoje o centro da cidade de Valinhos e desenvolvem
ali a vinicultura. São importadas e testadas dezenas de variedades
de uva e também de vários porta-enxertos. Notável, pois,
a contribuição de Dierberger para a Citricultura e a Vinicultura.
O ano de 1925 marca o pioneirismo de Dierberger com a primeira exportação
de laranjas de Limeira para a Europa. Referida exportação foi
feita de sociedade com o saudoso Dr. João Baptista Levy, e, relatando
as peripécias do novel empreendimento, orgulham-se os irmãos
Dierberger de, profeticamente, encerram assim o relatório de profundo
significado social:
"...operários e operárias de Limeira, apesar de inexperientes,
demonstraram grande habilidade para este novo tipo de serviço, que,
quiçá, ainda será de enorme importância para São
Paulo e para o Brasil."
É chegado o ano de 1927, e, pela integração das organizações
existentes forma-se a firma Dierberger & Companhia, na qual João
Dierberger é sócio comanditário e dois irmãos
sócios solidários.
Em 1928, em terras adquiridas em Poços de Caldas, organiza a firma
a exploração de culturas especializadas do cravo e da rosa para
a produção de flor cortada. No litoral, em Cubatão, reproduzem
plantas tropicais e exportam mudas de palmeiras para Buenos Aires.
1931 - Em 31 de dezembro falecia João Dierberger, nascido em Baden,
na Alemanha, em 26/12/1869. O triste acontecimento gerou, como se pode imaginar,
novos e grandes problemas, inclusive os de ordem sucessória. Já
em 1929-1930, em conseqüência da paralização dos
negócios motivada pela crise mundial - a célebre sexta feira
negra - a firma foi cruelmente afetada, pois a consecução de
seu trabalho exigia constantemente todas as disponibilidades e faltava cada
vez mais o dinheiro. Para sobreviver, impuseram-se radicais medidas de concentração
e de economia. Suspendeu-se a seção florística e a da
produção de flores para corte. Liberando-se pessoal, instalações
e capitais, ficou reduzida a firma, que somente assim pode sobreviver.
Em 1938, em substituição à "seção
exportação", da Dierberger & Companhia, é organizada
a firma Dierberger Exportadora LTDA, inaugurando-se, nesse ano, seu "Packing
House" em Limeira.
Este segundo período da firma é caracterizado pela extensão
geral das diversas organizações dependentes e especializadas.
Assim, no campo agrícola, os seguintes fatos merecem relevo: Introdução,
aclimatação e propagação de mudas de novas classes
e variedades de abacateiros, o que permitiu, através da enxertia, a
produção dessa valiosa fruta durante o ano todo.
Importação, durante os anos de 1929 até 1932, de muitas
variedades comerciais da Nogueira Pecan, sendo que as melhores passaram a
ser produzidas por enxertia. Destaca-se, entre elas, a variedade "Mahan"
que hoje é a mais plantada.
Introdução de numerosas variedades de plantas cítricas,
tais como diversas tangerinas, a laranja valência, a Washington Navel
(Bahianinha ), a laranja Hamlin, divresos Grap-Fruits, etc.
Além da manga Haden e de muitas outras introduzidas para experimentação,
o pêssego, ameixa, maçã, caqui e outras depois de testadas
foram entregues às Estações Experimentais e aos pomareiros
e amadores de todo o Brasil. Constituiu-se, assim, precioso material genético
que vem servindo para melhoramentos da fruticultura, como é o caso
do pêssego Jewel, que permitiu o aparecimento do pêssego talismã
e de outras notáveis criações do Instituto Agronômico
de Campinas.
A ameixa Kelsey Paulista, notável variedade por nós descoberta
e lançada nos idos de 1950, representa valiosa seleção
e é hoje intensamente plantada.
Em 1930-1931, por importação de sementes da "Alachua Tung
Oil Corporation: , a firma introduziu a nogueira Tung, melhorando-a pela seleção
de tipos altamente produtivos, cuidando de sua fixação pela
enxertia. A eclosão da guerra, infelizmente, interrompeu a execução
de vasta plantação programada para ser desenvolvida por entidade
estrangeira.
Como que destinada a assinalar gloriosamente a passagem do 80º aniversário
da Organizações Dierberger, a Dierberger Agrícola S.A.
, entre 1972-1973 cuidou da introdução e da seleção
de novas plantas que poderão vir a ter extraordinário significado
econômico, uma vez terminado o período experimental, a saber:
- 27 novas variedades de nogueira Pecan.
- Mais de 10 variedades de Nogueira Austrália - a Macadamia.
- Actinídia chinensis - a Groselha da China
- Briomeliáceas e outras plantas ornamentais.
Eram os principais colaboradores no campo agrícola, durante esse período: Wenceslau Strassburger, Albert Oswald, Henrique Jacobs, Paulo Leistner, Ângelo Fracaroli, Walter Lorenz, Goerg Pirsch, Paulo Dorfmund e Luiz Marino Netto.
A
exportação da laranja, iniciada em 1925, havia tomado franco
desenvolvimento e os nomes das nossas marcas "Tropic Sun", "Tropic
Palm" e "Exquisit" haviam conquistado a confiança dos
importadores europeus.
Com a inauguração do moderno "Packing House" próprio,
e, Limeira ( hoje demolido), o caminho estava aberto para um esplêndido
desenvolvimento futuro. Em 1939, quando terminada a safra de laranjas em Limeira,
iniciava-se no Rio de janeiro a exportação de laranjas "Pêra
do Rio", a eclosão da Segunda Guerra Mundial "matou"
a indústria e gerou desesperanças. A empresa encerrou as suas
atividades e posteriormente foi liquidada.
Salientamos como sendo os principais elementos desta atividade: João
Senra, João Kachler Filho, João Fischer, Luiz Marino Netto,
Alberto Koehler e Henrique Mantel.
Sob
competente direção, a "Seção Paisagismo",
da Dierberger & Companhia levou a efeito notáveis trabalhos nesta
arte. Dentre os inúmeros jardins e parques, tanto de particulares como
de prefeituras municipais, mencionamos apenas: Jardins do Palácio Guanabara,
no Rio de Janeiro, Praça da Liberdade, de Belo Horizonte-MG, Ilha do
Brocoió, na Guanabara, parques e jardins da família Guinle,
em Terezópolis, jardim do Ipiranga, em São Paulo, termas de
Poços de Caldas e termas do Araxá.
Eram os principais responsáveis por esta seção: Reynaldo
Dierberger, Gustavo Bausch, Rodolpho e Joaquim Bohem e Walter Bartsch.
A seção comercial da Dierberger & Companhia conceituava-se
cada vez mais entre os consumidores e plantadores de sementes de todas as
espécies, tanto as nacionais como as importadas. O comércio
de bons artigos, constituídos de fungicidas, inseticidas e outros para
e da lavoura acompanhou durante este período o processo geral. Foi
seu principal dirigente durante nada menos de cinqüenta anos o saudoso
Theodoro Lourencini, e continuam hoje Carlos Alfredo Roderbourg, Ronald Riether
e Paulo Kassahara.
3º
Período 1940 - 1973
Este período caracteriza-se pelas especializações e pode
ser assim descrito:
1940 - O conjunto de atividades de caráter diferente dentro de uma
organização central, a Dierberger & Companhia, revelou certos
inconvenientes que era preciso remover.
Encerrou então a firma as suas atividades, constituindo-se, por sucessão,
as seguintes organizações mais especializadas:
Dierberger Agrícola LTDA, Limeira
Viveiristas Fruticultores
Dierberger Agro Comercial LTDA
Comercio de sementes e de artigos para a da lavoura.
Importação e Exportação.
Seção Industrial para a produção de mentol.
Dierberger Arquitetura Paisasística LTDA.
Ajardinamentos em geral.
Plantas Ornamentais.
1950-
Desmembrando a "Seção Industrial" da Dierberger Agro
Comercial LTDA, é fundada a firma Dierberger Industrial LTDA, tendo
esta por escopo a industrialização do óleo essencial
da Hortelã Pimenta e de outros óleos essenciais.
1954 - Independente das empresas existentes, é fundada uma nova organização
de fins agrícolas, a Agroessência LTDA, cujo programa de desenvolvimento
prevê o plantio de plantas aromáticas e a produção
de seus óleos essenciais, o que é realizado no município
de Torrinha, neste Estado.
1955 - Com a fusão das organizações Agroessência
LTDA e a Dierberger Industrial LTDA, é formado um complexo de maior
amplitude, sempre em caráter especializado, surgindo, assim, a Dierberger
óleos Essenciais S.A
Dando continuidade ao trabalho inicial empreendido pelas suas antecessoras,
a Dierberger Óleos Essenciais S.A . pode registrar o mais satisfatório
sucesso tanto na extensão das suas plantações como também
na parte industrial em sua fabrica, em São Paulo.
Smpre fiel ao espírito pioneiro que tem norteado as iniciativas Dierberger,
introduzia essa firma novas ou melhoradas seleções de plantas
aromáticas, tais como: Gerânio Rosa, Patchouli, Vetivert, Ylang-Ylang,
Limão Siciliano, Citronela, Capim Limão, Palma Rosa, Bergamota
legitima, e os eucaliptos Citriadora, Glóbulus, Maideni, Smithi, Staigeriana,
etc... representam estas introduções considerável trabalho
agrícola cientifico e também grande dispêndio de capitais.
Por outro lado, em sua Usina, em São Paulo, alem de produzir derivados
dos diversos óleos, agregou uma seção de composição
Perfumistas, continuando a divisão de fabricação de mentol
em escala moderada.
Durante o período de 1940 a 1973, fazem-se merecedores de especial
referencia, para invulgar eficiência e dedicada atuação,
os seguintes elementos:
-
Na Dierberger Agrícola S.A .
João Dierberger Junior, Henrique Jacobs, Luiz Marino Netto, Paulo Leistner,
Ângelo Fracaroli, João Ernesto Dierberger.
-
Na Dierberger Agro Comercial LTDA
João Dierberger Junior, Guilherme, Kawall Gomes, Carlos A Roderbourg,
Agostinho Santiago de Castro, Ronald Riether, Paulo Kassahara e Olavo Sebastião
Costa.
-
Na Dierberger Óleos Essenciais S.A
João Dierberger Junior, Guilherme Kawall Gomes, Richard Rothe, João
Ernesto Dierberger, Francisco Soares, José Thely Bertoni, Agostinho
Santiago de Castro, Clodoaldo Martins Prado, Idevar Morales, Jan Strebinger.
E na seção agrícola desta ultima empresa:
Karl Heinz Hlawensky, Karl Otto ,Klaus Hlawensky, Walter Kohler, Alberto Koehler,
Domingos Gregrolin, Sebastião Garcia, Vicente Grosso, Henry Kristensen.
Abrimos aqui um parêntese para elevar um pensamento de imorredoura gratidão
e de saudade a memória dos colaboradores que já nos deixaram.